MARATONA, ONTEM, HOJE, AMANHÃ

29 de março de 2019

Depoimento de Winston Hirassaki, 50 anos, esposo, pai, ortodontista e Vice Presidente da Associação de Corredores Os Tucanos, o mesmo irá fazer sua segunda participação em uma maratona no dia 07 de abril na cidade de São Paulo.

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Ontem

 

Superados os limites das corridas de 5, 10, 15 e 21km, restava a grande prova: a Maratona. Em janeiro de 2016 eu e mais três amigos decidimos encarar de frente este desafio e no final de fevereiro ou início de março começamos nossos treinos para tal fim. A princípio o medo era grande, mas a medida que os treinos foram acontecendo, nosso preparo foi melhorando a confiança se tornou maior que a apreensão; e a cada momento de desânimo, as esposas, filhos e amigos estavam sempre presentes e nos fortaleciam novamente.

Faltava um mês para o grande dia, e a ansiedade crescia juntamente com o condicionamento físico, a esperança de vencer os 42.195m era enorme, estava tudo dentro do programado… exceto o fato de, semana e meia antes da prova, em meio a um treino de tiro de 1000m, a fácea do pé direito resolveu inflamar. Abortei o treino com uma dor insuportável, incrédulo de que aquilo estivesse acontecendo. Me veio a memória, todos os dias de treino, toda a animação dos amigos, o companheirismo da esposa; esqueci tudo que aprendi em fisiologia e deixei a razão sucumbiu ante a emoção, decidi que correria de qualquer jeito.

Foram 11 dias sob efeito de anti-inflamatório, e claro, sem alertar o treinador da real gravidade do problema.

Enfim, chegou o dia da viagem, esposas e amigos no aeroporto para darem aquela “arribada” no ânimo e na auto confiança. Voo tranquilo, hotel excelente, retirada do kit, tudo indo muito bem, mas a lesão ainda preocupava.

Na véspera, recebemos a visita do treinador no quarto do hotel, sim, ele foi nos acompanhar, e recebemos as últimas e importantes instruções.

Na verdade, daquele momento em diante, as horas pareciam não passar, realmente, agora eu estava ansioso, jantar com cardápio específico para o dia seguinte, e uma bela noite de sono, SQN, não conseguia dormir, ansiedade, preocupação, responsabilidade, tudo junto e misturado.

Enfim, 6h30 da manhã de domingo, 31 de julho de 2016, estávamos em nosso pelotão de largada em frente ao Estádio Municipal do Pacaembu, e largamos, emocionados e confiantes (sem dor e esperança a mil). Mas, lesão é lesão, e ela resolveu dar o ar da graça aos 13km, não conseguia encostar o calcanhar no chão, pensei: “não treinei pra desistir, vou dar um jeito”, e mudei toda minha passada e toquei firme, apreciando os pontos turísticos da cidade da garoa e as atrações musicais, estrategicamente colocadas em determinados pontos do percurso pela organização.

Mas ao mudar a passada assim tão de repente você põe a exaustão músculos que não estavam treinados para isso, e com 33km as panturrilhas fadigaram por completo, era necessário uma alongada muscular a cada 500m, mas estava determinado a terminar o percurso nem que fosse me arrastando, tipo “Tucano ameba” mesmo, lembrei me de cada mensagem que recebi e elas me davam força a levar um pé ante o outro.

Foram os 9.195m mais longos de minha vida, mas consegui, com esforço hercúleo e dores homéricas, cruzar alinha de chegada e superar os 42.195m da maratona em 3h53’. Receber, ao final, o abraço do treinador que, aflito e ansioso, aguardava na torcida, pelos seus atletas, dedicação que até hoje me emociona ao lembrar.

Não me orgulho do que fiz, pois como consequência, fiquei um ano e meio sem correr, me dedicando somente ao tratamento das faceítes plantar (sim o pé esquerdo também queria atenção, e conseguiu).

 

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Amanhã

 

Retornei aos treinos no final de novembro de 2017, mas sem conseguir muitos progressos – tinha retornado à estaca zero, e quando começava a desenvolver nos treinos, uma nova lesão aparecia. Muitas vezes me senti: Frustrado sim, mas desanimado, jamais. Embora os anos tenham passado, ainda me considerava um atleta amador que poderia retornar ao seu esporte.

Decidi que se não colocasse uma meta, não conseguiria regressar com toda vontade e determinação que tivera outrora.

Dezembro de 2018, inscrição realizada na Maratona Internacional de SP, a se realizar no dia 07/04/2019. Era o tudo ou nada. Confesso que achei que não teria tempo hábil para a preparação, mas o objetivo era “terminar a Maratona sem sofrer”.

O treinador garantiu que me colocaria em forma até o dia da prova, e como confio mais na experiência dele, que em minha capacidade evolutiva, parti para os treinos, com foco total nesta prova.

A ansiedade, a gana de querer se superar, a alegria em ter mais um desafio a ser vencido, é o mesmo daquela de 2016, mas o que mudou? A atenção ao meu corpo, aprendi a ouvi-lo, não senti vergonha em abortar treinos, não senti vergonha em segurar meu ritmo (depois de uma chamada do treinador), não senti vergonha em pedir para descansar alguns dias.

Mas, como todo amanhã, essa maratona ainda é uma incógnita; contudo, sinto muito mais confiança neste momento, me sinto mais preparado física e psicologicamente, tenho uma estratégia de corrida já definida, elaborada conforme os treinos realizados, rigorosamente dentro do pedido pelo treinador.

Então, deixarei o amanhã para quando ele chegar, pois sei que mais uma vez, terei minha família comigo, terei meus amigos e minha equipe comigo, sei que novamente, todos estarão na torcida.

 

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Hoje

 

Bem, quanto ao hoje, é um dia após o outro, cada treino um aprendizado, uma etapa passada, um ganho em condicionamento, um bônus no psicológico.

Vivo o hoje com muita moderação, sempre preocupado em não sobrecarregar o físico, afinal, a data de nascimento já é antiga, e qualquer lesão será motivo para abortar e adiar este desafio.

 

Então, o meu hoje é acordar com esperança, cumprir minha missão e dormir com mais esperança ainda, com muita Fé em Deus e sangue Tucano nas veias. Contrariando o poeta, NÃO vivo o hoje como se não houvesse amanhã, vivo o hoje para que o amanhã seja ainda melhor.

 

E que venha a MARATONA…

 

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